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Hoje, sexta-feira, foi o dia em que consegui me despedir do Lô.

Como ele mesmo dizia: “se eu morrer, não chore, não. É só Lua.” Curiosamente ,ou talvez não ,ontem a lua estava enorme. Daquelas luas que não se olha, se recebe.

Há uma frase que me acompanha desde que me entendo por alguém que escreve: eu sou muito abençoada por ter nascido mineira.

Não é provocação aos demais estados foi assim que se cumpriu em mim o destino.

Escola Estadual Afonso Pena – Varginha – MG

Revistando a segunda série, da Escola Estadual Afonos Pena, lembro-me de escrevendo redações enquanto a professora Tia Terezinha colocava para tocar as músicas do Clube da Esquina.

Imagina cantar “Maria Maria”no dia das mães, não como homenagem doce, mas como denúncia amorosa das Marias que sustentam o mundo.

É isso. Cresci assim. E, com toda sinceridade : – Deus me livre não ter nascido mineira.

Capa do Álbum Clube da Esquina

Lô me ensinou um tipo de coragem que não se aprende nos livros:

“Porque se chamavam homens Também se chamavam sonhos E sonhos não envelhecem…”

A letra é : Milton Nascimento / Márcio Borges / Lô Borges, dizem que especialmente essa parte é do irmão Marcio.

Aliás, tirando o corporativismo um pouco do meu texto, me casei numa fazenda centenária em Três Pontas. Claro que tinha Milton, claro que tinha Lô. Naquele dia aprendi outra lição:

“O mundo lá sempre a rodar Em cima dele tudo vale Quem sabe isso quer dizer amor Estrada de fazer o sonho acontecer.”

Pois sigo embriagada desse sonho até hoje.

E é por isso que não consigo acreditar que o sonho possa morrer. Sonho não morre. Sonho não envelhece. Sonho vira chão, trilha, lombo de estrada.

Mas o que mais me encanta na história de Lô é o Disco do Tênis.

Ele foi forçado a fazer esse disco. Contrato. Mercado. Pressa. O capital sempre acha que pode marcar o ritmo da alma. Ele mesmo confessou que não tinha mais nada para dar depois do Clube da Esquina. Mas fez.

Minha parte favorita é a semiótica pura da capa: o tênis gasto.

“A imagem tem um alto valor simbólico: Lô teve que gastar muita sola de sapato para deixar o disco pronto em tempo recorde.”

E então ele diz:

“Eu pensei: ‘Não tenho nenhuma canção, mas eu vou criar, vou arregaçar as mangas, vou pegar o violão, vou dormir com ele, vou ficar abraçado com o violão 24 horas por dia e vou fazer o disco. E foi o que aconteceu'”.

Fez. Mas depois não quis mais.

“Quando acabei, eu falei: Não quero ver gravadora, quero ir pra Bahia de carona.”

Ele renegou a lógica do capital, o imperativo do “produza mais”. Escolheu o tempo dele. O sonho dele. E o disco? O disco não morreu. Nunca morre o que nasce verdadeiro.

Em 2018, o Arctic Monkeys citou o Disco do Tênis como influência direta. Alex Turner, enlouquecido por Aos Barões, compôs quase todo Tranquility Base Hotel & Casino com Lô na cabeça. Veja bem: o mundo lá sempre a rodar, mesmo quando a gente acha que ninguém está vendo.

A estreia ao vivo desse disco de 1972 veio 45 anos depois. Quase meio século depois, provando — outra vez — que sonhos não envelhecem.


Hoje eu chorei no trânsito. Chorei com pressa. Pressa de fazer meu sonho dar certo. Pressa de não perder tempo. Pressa de não falhar comigo mesma. Mas talvez a lição seja outra: o sonho não tem pressa. O sonho não envelhece. A gente é que envelhece da pressa de acreditar que ele pode morrer.

Eu sigo. Com o tênis gasto. E com a lua iluminando o caminho. 🌙

Dominique Chagas Founder & Diretora Criativa Semiotante

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